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Atividade

07/11/2017

ENEM 2017 – Os surdos e todos os indivíduos, únicos e dignos de nosso olhar


ENEM 2017 – Os surdos e todos os indivíduos,  únicos e dignos de nosso olhar

Os surdos e todos os indivíduos, únicos e dignos de nosso olhar

Com o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, a prova do Enem 2017 que aconteceu no último domingo surpreendeu não apenas alunos, mas também professores.

Com três textos base, um falando das leis que garantem aos deficientes auditivos acesso à educação, um gráfico mostrando queda na matrícula desse grupo no Ensino Básico, um cartaz dizendo “Sou surdo e pós-graduado em Marketing. Na sua empresa tem espaço para mim?” e um histórico sobre o início da educação inclusiva para tal grupo, a prova pedia uma dissertação sobre a temática.

A surpresa gerada se deu pela especificidade do tema, sobre o qual não se apostou nas aulas de escolas e cursinhos sobre possíveis abordagens da redação do Enem. Mas, a temática é mais que relevante e fundamental não apenas para a educação, mas também para o mundo corporativo e a vida em todos os seus aspectos. Simplesmente porque incluir é hoje um dos grandes desafios da humanidade, nos mais diversos países.

No meio corporativo, por exemplo, avançou-se na inclusão dos deficientes graças a uma lei de 1991 que criou cotas para eles, de 2% a 5% do total de funcionários dependendo do tamanho da empresa. A inserção no mercado de trabalho por meio desta legislação mostrou que os deficientes são capazes e que nada têm a ver com ineficiência. Pelo contrário, eles possuem talentos, habilidades e competências diversas que não eram enxergadas.

O espanto causado pelo foco específico nos surdos na prova do Enem talvez tenha se dado pela invisibilidade deste grupo na sociedade. Deste e de muitos outros que, apesar de existirem, não são percebidos em sua condição e especificidades. Para se ter uma ideia, há em torno de 10 milhões de deficientes auditivos no Brasil, segundo o IBGE/2010, ou seja, praticamente 5% da população. Não é pouco e, mesmo que o fosse, não haveria motivo para não enxergá-los, já que são cidadãos como qualquer outro.

O tema do Enem, por mais difícil que possa ter sido, nos alerta para um olhar mais atento e específico diante das diferenças da sociedade em que vivemos. Foi, sim, uma questão difícil, simplesmente porque é difícil enxergar o outro em sua individualidade, tirando dele estigmas de grupos tidos por “minorias” ou “minorizados”, já que nem todos estão em menor número, apesar de minorizados em direitos.

Na genial obra “Os estabelecidos e os outsiders”, Norbert Elias e John L. Scotson contam sobre uma cidade fictícia da Inglaterra dividida em três bairros, sendo um deles (a “zona 3”) estigmatizado pelos habitantes dos outros como o das pessoas mais violentas. Os autores mostram que esse estigma de grupo revela-se mais cruel que o preconceito individual, já que condena até mesmo os que ainda nem nasceram a uma condição daqueles que ali residem, forçando-os a ser exatamente o que a sociedade espera deles.

Mais que falar de diversidades e de inclusão, precisamos aprender a praticá-las sabendo entender a singularidade que há nas diferenças que compõem a essência humana. E eis que surge uma palavra que também é muito mais propagada que praticada: a empatia (ou, a capacidade de se colocar no lugar do outro, em sua individualidade, em sua realidade, em suas necessidades).

Os 10 milhões de surdos brasileiros hoje ganharam a pauta da mídia porque uma prova os colocou como protagonistas. Outros tantos milhões de pessoas com deficiências ou com naturezas distintas da maioria, ou opções de vida que fogem a “padrões”, ou com qualquer característica que a torne alvo de preconceito estão, também, precisando de um olhar individualizado. E respeitoso.

Façamos, portanto, um esforço para enxergar pessoas como pessoas, no seu inviolável direito de existir com dignidade.

 

SUGESTÃO DE ATIVIDADE | EU EXISTO
Que tal aproveitar as diferenças da própria classe para conhecermos as individualidades e exercitarmos o respeito a elas? Numa roda de conversa, cada aluno descreve a si mesmo, num exercício de autoconhecimento, contando sobre sua personalidade, suas origens étnicas, seus gostos, seus sonhos, enfim, a diversidade que há em si. Ao final, o professor comanda um debate sobre a importância de conhecer o outro para poder respeitá-lo, pois só quando conhecemos podemos desconstruir estigmas e preconceitos.

Texto: Marcos Brogna – OPEE


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